
Um dia frio
apesar do intenso sol
que rodeava a passagem
dia de apagar velas
enquanto escorrem as lágrimas
d'o fim
Meu primeiro esboço para a escrita: a sua auto-flexão. Não seria refleti-la, mas propor, com ela, a formação de novos mundos, desdobramentos. Para isto, utilizo-me de alguns referenciais, sendo tecidos principalmente a partir de afirmação encontrada em uma seção do Zaratustra de Nietzsche (2005), intitulada “do ler e escrever”; [...]
Compor sobretudo um desejo: tratar Nietzsche com a devida insubmissão (ou não limitação?) a seus escritos, como o estudante que abandona seu mestre e tenta escrever suas próprias linhas, tal qual o personagem-conceitual Zaratustra o quer, demonstrando que “um modelo não é uma prisão, ele convida a encontrar seu caminho e a manifestar sua ingratidão” (ONFRAY, 1995, p. 13), não tornando a sombra do mestre um espólio, ou fabricando um dublê de intelectual... Assim, procuro tratar a escrita neste pequeno escrito (desculpe-me a repetição) como algo ligado à vida, e sendo delineada conforme as experiências, escolhas e modos de existir. O escritor como um artífice da palavra, da palavra que fere, suscitando fluxos e devires, enfim, movimento e vida.
A primeira passagem: “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que sangue é espírito” (NIETZSCHE, 2005, p. 66).
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de André Luiz Xavier, usuário do CAPS/Itapeva e membro da Associação Franco Basaglia, São Paulo, SP.
de Marli Coelho Marques de Abreu, usuária do Ambulatório de Saúde Mental do Mandaqui, São Paulo, SP.
Não é meu interesse repetir textos, imagens, enfim, estas coisas do silêncio e da escrita - seja com o lápis, seja com a luz - que me povoam. Mas é impressionante como palavra e texto se acompanham neste emaranhado obscuro que é a vida, e das coisas que nos interpelam no meio dos caminhos que vão se tornando possíveis - despercebidamente. Um dos filmes que mais me tocou nos últimos tempos foi Lavoura Arcaica, do diretor brasileiro Luiz Fernando Carvalho, sob a belíssima fotografia de Walter Carvalho, baseando-se no romance homônimo de Raduan Nassar. Um deleite para os sentidos, e eu não me canso de senti-lo. Lê-lo, nestes dias, tem sido um exercício de trazer à superfície da memória todas as imagens que o filme me provocou. E singularizar a vida no exercício flutuante dos contrastes.
Segue um excerto da obra de Raduan Nassar, que não consigo definir, a não ser com meus suspiros.
"Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse "para onde estamos indo?" - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso religioso, desprovido de qualquer dúvida: "estamos indo sempre pra casa".
CANAL
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar...
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Patrícia Galvão - Pagu)
Sentir o despretencioso de virtudes
Ah, que males estes de procurar uma terceira pessoa (que não encontro).
Teimo na escrita de mim, e nada verte além de sangue (ou pólvora) daquelas lembranças de infância. Meus poucos trocados íam ao brinquedo explosivo e eu me divertia, só, a caminhar e ouvir os barulhos.
Como hoje.
Estávamos eu e a cidade, por alguns instantes. Contemplávamos os nossos mundos, as nossas diferenças e os nossos pertencimentos.
A nossa simetria.
Foi estranho este encontro a sós. Porque naquela tarde tudo parara, eu a andar. E engraçado que meu véu era o observar: os barulhos e as bolhas de sabão, que me atrevi aos montes.
Aquele dia de rememorar
de dar nós na garganta
dos olhos que brilham
Que alguns chamam de "Hoje"
Eu chamaria de sempre em mim.