Monday, April 20, 2009
Monday, March 30, 2009
O duplo
N'aquele dia dedicou um tempo mais vasto a olhar ao redor: sentou-se num dado momento em um banco frio, momento este em que geralmente almoçava sozinho e podia imergir em todas as suas mais recônditas sensações e indagações para com o mundo. Geralmente cumpria esse ritual isoladamente, assumindo um certa solidão desvalida, de quem olha para baixo, temendo o olhar alheio, e se concentra quase com medo de esquecer as atitudes mais naturalizadas do cotidiano.
Mas aquele era outro dia, e tinha inclusive outra luz esta tarde: era, ademais, não o momento de se sentir dono de uma verdade interior que se julgasse superior, mas o de se colocar aberto ao simples ato de olhar, uma despretensão para com o julgamento daquilo que vê, e uma íntima entrega ao que está ao redor, pois ali a realidade não era um 'dado', mas vários fragmentos para os quais ele poderia dar a ordenação que bem entendesse, como na construção de uma ficção que mudamos a disposição das partes, até nos perdermos na escrita. Ele se perdia no ato de olhar.
Nesta tarde, pouco mais de duas horas, pôs-se a observar as pessoas concentradas nas suas repetições, o almoço deixara de ser um ritual, era apenas um esmagar-sólido diante de tanta rapidez e convulsão. Estava inserido em um laboratório humano repleto de sentimentos e interesses díspares, muitos destes envolvidos apenas com aquilo que Descartes incitou como sendo o “EU”, este sujeito moderno desprovido da consciência da sua materialidade, consciência esta que nada mais é do que a consciência de que todo conhecimento provém da experiência, e se dá a partir do seu corpo, e dos afetos que lhe tomam os sentidos...
Na saída, depara-se com uma senhora vendedora de chocolates, uma figura que bem poderia se comparar às vendedoras de flores tão belamente reverenciadas por Chaplin em Luzes da Ribalta, e num ato impulsivo se põe a procurar uma moeda de um real perdida nos bolsos, escolhe dois bombons, um vermelho, recheio de amendoim, e um rosa, recheio de avelã. E ela lhe dá um de avelã de brinde, talvez porque troque poucas palavras e olhares com estas pessoas que hoje se alimentam basicamente de plastificados e enlatados, e ela, na sua condição de vendedora-de-chocolates-caseiros-em-porta-de-restaurante, pertença a uma profissão e a uma poesia que parece não caber mais neste mundo... E justo por isso lhe parece que um dos ensinamentos silenciosamente profundos desta senhora – alguém que talvez acabou dizendo mais do que supunha, no simples ato de enunciar o seu “- tome, é pra você” – é que o primeiro, o primeiro de todos os passos é, simplesmente, lutar contra a pressa.
Que nossa urgência seja apenas a de mudar a realidade das coisas que não nos permitem vivenciar com mais clareza, confiança, e entrega o tempo.
Eu, imerso naquela contigüidade de sombras e reflexos.
Eu, um duplo.
No dia em que imagem, palavra, vivência e memória se encontraram.
Por que será que o Che tem este perigoso costume de seguir sempre renascendo, quanto mais o insultam, o manipulam, o atraiçoam, mais renasce, ele é o mais renascedor. Não será porque o Che dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será por isso que segue sendo tão extraordinário, num mundo em que as palavras e os fatos raramente se encontram, e quando se encontram raramente se saúdam?
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Thursday, March 26, 2009
Manifesto Contemporâneo I
Perguntam-se sobre as relações humanas neste mundo, quando na contemporaneidade praticamente todos na multidão têm mp4’s ou ipod’s para de algum modo não se relacionarem com o mundo exterior, e acabam por se transformarem em verdadeiros autômatos do mundo ‘pós-moderno’, onde cada um tem direitos, mas a noção de direito se transformou apenas em ‘deter poder de consumo’
Para o homem que se liberta para os barulhos e silêncios do mundo... Para o homem que se sente bem em tocar as pessoas, e tocar o que está à sua volta. Para o homem que não teme olhar e sentir o outro.
Se o progresso tecnológico levou o mundo a uma exacerbação do individualismo, a grande questão do nosso tempo, deste mundo pós-tecnológico que gerou este individualismo exacerbado, tem sido “Como podemos conviver, como podemos viver junto?”, no qual a diferença aparece como um dos problemas fundamentais do nosso século XXI, em que até mesmo as relações humanas estão se fazendo apenas no campo virtual, cortando a etapa fundamental, que é a sua presentificação...
Fontes das imagens de Tókio:
Imagem 1: http://www.flickr.com/photos/tuija/192057074/
Wednesday, March 11, 2009
Sobreposições imprecisas
(Richard Peter Sen, 1945)As ruínas assumem essa emergência de sobreposições de idéias, pois as que "não se deseja mais", tenta-se "apagar". Assim são as ruínas de guerra, mas também as ruínas do mais profundo do nosso cotidiano.
Apesar disso, as idéias resistem...
Mas, para se vivenciar uma experiência do pensamento, é necessário antes assumir que para se fazer Filosofia deve-se pressupor que a verdade simplesmente não existe...
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Diria, como num apêndice, que a verdade não existe - ao menos não desde o princípio -, uma vez que deve-se partir da inexistência da verdade, pois para se vivenciar a experiência do pensamento é necessário, antes de mais nada, uma abertura... E deter verdades absolutas é, sim, o modo mais eficaz de fechar-se para os deslimites do sensível e do pensamento (uma vez que toda matéria do pensamento se dá a partir da própria existência).
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Texto a partir da introdução de "Meta-história: a imaginação histórica do séc. XIX", de Hayden White. Ver: Spinoza, ética.
Wednesday, February 25, 2009
Soledad

Soledad tenía el mismo campo en la mirada y el mismo viento en sus oídos, una llamada desde la esquina del tiempo donde lo que tenemos en la piel es la danza, las mensagenes de una composición entre el ahora y el pasado: La memoria de las transcripciones (à la diferencia y vitalidad de los tiempos).
Creando la vida con un nuevo ayer, Soledad se confunde con la niña que le visitava por todos los tempranos con la luz del sol que se avecinava, y que hoy se asume como el medio-dia de leveza y casi nada de lamentación.
Cantante de la afirmación, que seas tu que me acompañes siempre, Soledad.
*composição visual: fotografia mariza ferreira, tratamento beatriz ferreira.
Tuesday, January 27, 2009
Interiores casas, Casas de anteriores...
Satolep deixa sempre em aberto um ir-se, uma evasão da densidade ("Estamos como o pátio, perdendo as marcas de umidade"*)...
Mas nunca consegue-se fugir de Satolep, da cidade das imagens internas, das ruas, ladrilhos, azulejos e cacos, que são, também, os restos de memórias que vamos deixando pelo caminho... mas que sempre retornam com o vento, o vento forte do Sul.
Esse vento-chama que acende o que é mais longínquo em nós. Luzes de outros junhos...
Retorno. Sentir, despir o olhar das certezas. A terra dos primeiros vestidos vista sob novos ângulos... Um outro...
"Eu quisera me confrontar com as coisas para afirmar a minha perenidade. Elas, aos poucos, afirmavam o que havia de concreto em mim".
Mas se outros concretos, a realidade geométrica do mundo, as casas externas, estes estão fadados ao tempo do desaparecimento... já as lembranças, essas casas internas, casas de anteriores, tratam de uma temporalidade outra...
"Minha mão já estava posta na mala. Meu corpo decidira voltar".
Satolep caminha junto, para onde te moves. Mesmo que tua medalha, como em Gonzaguinha, seja a lama dos sapatos que carregas.
E é por estes descaminhos que, a cada novo dia, amanheço em Satolep.
Satolep jamais passará.
Satolep jamais desaparecerá em mim.
"Eu, que saíra pelo mundo atrás de todas as coisas"... eu era sempre um outro alguém.
*todas aspas são trechos que me inspiram na leitura de Satolep, de Vitor Ramil. Ed. Cosac Naify.
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Monday, January 19, 2009
Deriva
Nossos níveis obscuros de imersão. Que sejam na doçura e na amargura, nunca no mesmo, no de sempre que nos faz iguais, no que não nos mata, mas nos entristece, a ponto de... pensar que seguimos vivendo, mesmo sem nenhum toque, aos esbarrões de tardes que só o que temos são palavras. Montes de palavras.
E é por um reflexo turvo – por uma palavra turva – que vamos, de olhos fechados, sentindo a textura dos limites de nossas peles. Até que então não saibamos mais o que é solo, o que é corpo: é no exato ponto em que nos confundimos, em que já não sabemos mais a quem pertence cada fragmento {fragmentos que nos desalinham}, só e somente a partir daí... que pode surgir qualquer caminho.
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Thursday, January 15, 2009
[CINEM]Afeto e Memória
{aquela lua, por bigatrice}
Dos idos anos em que o vídeo cassete estava sendo extinto, e locadoras se desfaziam de seus acervos, lembro da minha tentativa redentora de “salvar” alguns filmes que pensei jamais poder ver de novo. Tenho vários em minha estante, a maioria comprei por um real, talvez mais alguma moeda, mas nada que seja mais caro do que um maço de cigarros. Era, então, uma questão existencial, quase um vício. O que valia não era o preço, mas o valor estético/poético/político/e/afetivo que dava para aquelas imagens-movimento. De alguns poucos que recolhi (tratava-se, de alguma forma de cacos), tenho ainda alguns mofos.
Do Festen, ou “Festa de família”, de Thomas Vinterberg, que eu, de tão emocionada com o achado, comprei sem nem ao menos abrir a caixinha para ver o que tinha dentro. Chegando em casa, em euforia semelhante, depois de praticamente precisar “restaurar” o filme que continha no seu interior {a fita estava cortada, e tive de abri-la e colá-la com fita durex}, coloquei o filme e não conseguia acreditar que se tratava “agora” de um trash-cult-comedian film. Pois é verdade, o que eu tinha ali no interior era um exemplar de um filme que sequer recordo o nome, só lembro que era uma história de uma mulher que, tendo tantos pretendentes, não conseguia escolher nenhum deles para se casar. Pensa que, convidando a todos para jantar consigo em uma mesma noite, conseguiria, observando-os, decidir-se finalmente... Ao que, por dificuldade, resolve não ter a nenhum, e mata a todos {o que, de algum modo, faz com que tenha a todos}... Sei o roteiro porque, de tanta raiva, vi até o final... E tenho a fita até hoje, mesmo sem saber seu nome.
Um outro que levei comigo, pois pensava nunca mais vê-lo, era The Elephant Man, “O Homem Elefante”, de David Lynch. Acho que nem nos filmes de Lars von Trier chorei tanto como em “O homem elefante”... A crueldade mascarada de ajuda, a ciência como uma outra forma de manipulação do homem sobre o homem, criando saberes, mas não modificando o interesse por trás de seus poderes, a vontade de um homem dominar outro homem... O modo como estas atitudes nos parecem tão longínquas, a ponto de as concebermos como “humanas”... É aí que percebo que Nietzsche é tão mal compreendido quando pensam que ele foi o primeiro a dizer isso. E o quanto entendê-lo também como um teórico da vontade de potência nos supõe não uma “cura”, mas um novo modo de olhar para estas questões... E o quanto isto implica numa determinada compreensão de mundo e de filosofia {e, por conseguinte, de cinema}, pois já não importa superar o outro, mas superar-se a si mesmo...
A visceralidade com que Lynch trata neste filme estas relações é, a meu ver, uma das referências presentes nas obras de cineastas como Sergio Bianchi, em tratar sobre relações semelhantes, muito embora este se utilize de uma violência mais física – porém também baseada em comportamentos culturais – como meio de dialogar sobre temas tão fortes como este...
Eis que “O Homem Elefante” está aí em dvd, mas como hoje em dia a difusão da cultura já pode se dar de graça {ou não tão de graça assim, a Claro S.A., que não me deixa mentir}, fiz o download do filme e fiquei muito contente... Por mais efêmero que seja um arquivo de computador.
Mas um que eu nunca {nunca mesmo} pensei que iria encontrar, apareceu-me outro dia. Luna Papa, de Bakhtyar Khudojnazarov. Pureza, beleza, sutileza e um pouco de fantasia. Tudo o que é sublime ronda esse filme, a partir das relações de comunicação mais estranhas que as pessoas podem ter entre si... Poucas vezes um filme me deixou tão maravilhada com o que é mais simples na vida, como a areia, a terra, ou, o “outro”: a lua...
Também foi um filme que obtive de-graça-nem-tão-de-graça, e que, agora há pouco, ao assistir novamente as primeiras cenas – de somente 3 minutos – estas põe-me a observar não apenas a geografia do Tadjiquistão, mas os modos como as geografias podem afetar-nos, a ponto de nos conduzir a certos estados de alma que outras geografias podem (e devem) respeitar, mas não serão jamais capazes de entender, isso porque entendimento passa pela pele, pela experiência... E disso alguns filósofos também já falaram... Aqui, nos Pampas (essa geografia própria do sul do Rio Grande do Sul, do Uruguai e da região leste da Argentina), o Vitor Ramil chamou de estética do frio...
Percebendo a geografia presente neste filme, as curvas do relevo, acentuadas pelos ângulos que as sinuosidades rochosas vão assumindo {ao longo do tempo}, este e outros fatores contribuem para o modo como as pessoas habitam, se movimentam, se comunicam... e até mesmo impõe o limite de até onde pode ir o seu horizonte {muito embora de cada diferente ponto que se olhe, haja um novo horizonte, como na vida}.
Penso que também pessoas podem ser sinuosas, tendendo a uma adaptação fugidia... Mas não apenas estamos fadados a uma geografia – a do nosso nascimento –, mas a escolhemos, diariamente, nos nossos valores...
O homem é de terra, e eu ainda não encontrei um horizonte que me satisfizesse mais que o Pampa. O horizonte infindo é o limite...
E é, realmente, complicado separar espaço e tempo...
Pois, quanto ao último, também a memória é bastante sinuosa... Foi justamente por conta destes três minutos de geografia-oscilante-em-filme que eu lembrei de tudo isso, e ao relembrar, de certa forma revivi. Revi e recriei o tempo em que eu, com dois reais no bolso, deixava de comprar um sorvete para ir até a loja de vídeos, para, sonhadora, poder salvar dois filmes do esquecimento.
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Monday, January 05, 2009
Recolhimento

Sunday, December 28, 2008
Friday, December 26, 2008
Saturday, December 20, 2008
*
Se ser saudável é uma busca por mais força, também nas crises vemos movimentos de intensificação da vida: Como ser saudável está impregnado de solidão e de sofrimento... Aqueles que se pensam saudáveis-com-um-sorriso-que-nunca-acaba, simplesmente não vivem... A solidão é condição de possibilidade para uma busca e experiência de si. Também a solidão está para além das normas.
Porém Nietzsche não vive no mundo contemporâneo, e o que vemos hoje é uma reconfiguração disto que chamamos solidão, e também do que chamamos de fortificação da vida. Nesta época de vertigem e desmesura, em que somos atravessados por diversas informações que muitas vezes não temos tempo ou estômago de assimilar, enquanto uns vão apenas ‘contabilizando’ experiências, outros vão se perdendo no constante mar da dor de não conseguir conter o tempo. Que diria Nietzsche de uma época em que tememos a dor? De uma época em que se paga para não sentir? De uma época em que analgésico é sinônimo de amortecimento (que, aliás, já vem em pílulas, ou então como desejo de consumo, disseminado através de enxurradas de propagandas)? Fico a pensar que fim levaria o nosso querido filósofo bigodudo. Não poderia morrer simplesmente “de pena”, a loucura abraçado no cavalo diz muito mais. Mas, que estética da anestesia é esta a que nos submetemos? Será que a isso ainda podemos chamar solidão?
Ou será que se trata, assim, simplesmente... de medo?
[observem que a psicologia é a doença do século XX]
“A saúde será configurada de acordo com a criação de si e não enquanto conhecimento de si”.
Busca-se, então, não ter medo de olhar para o abismo.
Friday, November 07, 2008

“– Esteja aberta, minha filha. Você só consegue enxergar a dor... e aqui também tem muito amor”. Estas palavras soam cotidianamente. Ressoam. As palavras cortam?
Ele perguntou o que era a aparência, e naquele jogo semântico – amontoado de conceitos-mofos que perpassavam a pele – ele a fez parar, dizendo “vou tentar de outra maneira”, e deu uma aula de filosofia-e-vida tão completa em apenas 10 minutos, a partir da qual ela pensou até em kerouac, com seu “não tenho linguagem para encobrir meu embaraço”, o que a fizera chorar. Não porque tais palavras sobre aparência afirmassem a necessidade de uma verdade – até porque a verdade já fora questionada há tanto, inclusive por ele –, mas porque soavam extremamente verdadeiras... e cortavam a carne. Uma carne tão anestesiada. E que agora, finalmente, doía.
Por uma sonoridade leve (“there’s a beautiful mess inside”), transita entre alguns amontoados de lembranças, tentando recuperar o discurso. Mas lapsos são também suor, escoam. Talvez seja mais pertinente vivê-lo.
Voltando pra casa, ia então cartografando pequenos traçados da cidade, deitada na parte de trás de uma caminhonete. Olhar atento e um pouco de entrega: A carona que lhe proporcionara um pouco de vento no rosto. Os fios elétricos, que mais pareciam linhas de metrô, as árvores com flores (afinal, era primavera), a costura dos prédios no céu, quando os ruídos da cidade ficavam mais intensos. Finalmente vivenciara a frase “lo que importa no es la luz, son los 12 segundos de oscuridad”.
Despediu-se, abriu um sorriso... E caminhou em direção ao desconhecido.
O caminho era pintado com aquarela.
Sunday, October 26, 2008
La Lógica duerme
Saturday, October 04, 2008
tempo, tempo

Erro, nada, morena. Pecado é não viver.
Monday, September 29, 2008
Monday, July 21, 2008
Diferentes ritmos, passos lentos, passos que se dispõem. Dão-se ao tempo: tempo este necessário para que os fluxos perpassem algum lapso que não seja o de um sentido que vem, e impera. Perguntava-me sempre se era pé, após pé, ou um olhar atrás, quiçá um olhar através... para que lado se direcionava o olhar, quando a matéria de pensamento era a memória – a questão sempre era: se olha realmente para trás, quando se olha para trás? Caminha-se para qual direção, quando não foi imposta uma direção à caminhada? Sei que a passos lentos fui tecendo alguns emaranhados nos quais me perco ainda... fios de pele, olhares que envolvem algumas paisagens ainda tênues... doces lembranças do porvir...
toco com os olhos o que para mim é poro,
como aquilo que na infância pensei haver conhecido,
mas que não passava de cisco,
e hoje é deslumbramento.
Tuesday, June 17, 2008
Contar os descaminhos da minha memória.
Mas isso não tem nenhuma relação com recordar...
Não olho para trás quando olho para trás.
Queria habitar um entre, um território não-cinza.
Um lugar que fosse sendo criado, como todo passo,
Todo caminho.
Queria compor uma geografia dos meus passos.
Uma anti-análise do meu afeto.
E o saborear de uma criação.
Apenas sentir o passar do vento ao redor dos meus cabelos.
A vertigem de ficar estática por cinco minutos.
Acordada, sem saber.
Queria sentir o toque da mão... sobre a mão.
Como se me tocasse, e isso me fizesse sendo.
Um corpo.
Um corpo que anda.
Um corpo que anda e sente.
Queria percorrer este lado obscuro da minha memória.
Em que me faço outra, a cada história que conto.
Narrando-me, eu abro espaço para muitas outras
Que não fui.
E que agora estou sendo.
Pois sou corpo.
Wednesday, June 11, 2008
Deve haver algum sentido em mim... *

Passos se desfazem em meio a folhas secas, que tomam conta de um outono tardio. Colorações movidas pela decomposição: do dia, do verde, das intenções, das lembranças. O ferro mantém um pigmento natural, e sobre ele, passagens de sentidos múltiplos. Andei pensando que por frestas também se podia sonhar, eis que o vento chega e me sacode as inquietações... Passar uma noite acordada olhando para as ausências pode até comover. Mas percebi que na paisagem me perpasso, e também nas frestas encontro algum alento. Se em algum momento eu me vi refém de mim, sofrivelmente foi aquele não que, de modo inalterável, fez-me ver que, sim, ainda é possível sonhar. Olho além. E ainda vejo vida. Então...
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* Imersa em “Deve haver algum sentido em mim que basta”, da Companhia de Teatro Autônomo, do RJ.
Thursday, June 05, 2008
Tuesday, May 27, 2008
Reminiscências

Apoia-se na janela e assiste a vida passar. São movimentos frenéticos, mas observa tudo com uma serenidade de quem respeita o movimento da vida. O tempo já não é motivo de dor... Não pensa que já vivera tudo, embora no alto dos seus 72 anos muito já esteja impresso nos limiares de seu corpo: rugas e cabelos brancos, disso já havia notícia há anos. Mas ela sorri. Não faz parte da geração cosmética. E respira aliviada por isto.
Um singelo ‘olá’ àquele que passa. Pensam que ela espera, um amor, uma dor, algum instante puro e doce de afeto. “Espera não é desespero, menino”, ela pensa em dizer para o garoto que corre sem saber para onde vai.
Ela não espera. Sabe, simplesmente, respeitar o tempo. Sabe, também, que n’aquela janela onde se debruça todos os dias estão inscritas muitas memórias que talvez não tenha tempo de contar.
Thursday, May 15, 2008
Fly, little butterfly... fly...

Mesmo se só o silêncio responde a ela".
E me agrada responder assim, tão assistematicamente,
assim, tão intersticialmente...
Monday, May 12, 2008
Solana e as perguntas

- Será assim a vida?
Ela adorava questionar sua mãe, irmão, mesmo algum desconhecido, na confiança de que teria a resposta para todas suas dúvidas.
Mas nunca obtinha, porque, afinal, Solana, as perguntas mais simples são as mais difíceis de serem respondidas.
Solana e suas perguntas:
- Por que o coração bate?
- Por que o céu é azul?
- Por que a mexerica morreu?
É, talvez a vida seja feita da matéria dos sonhos.
Você sempre teve razão, pequena.
Monday, May 05, 2008
A capital da dor
Hoje eu vou tentar uma escrita surrealista. Qual, perguntei, eu, meio displicentemente, porque pouco o ouvia. Talvez fosse falta de atenção. Qual, repeti, com um pouco mais de afinco. Aquela que a gente escreve sem se preocupar com a ordem, a gramática e a semântica. Ah, aquela que vem sem ponto, disse eu, como se entendesse. Na verdade eu não entendia, como em Alphaville**, o significado de somar. Não bastavam as composições de palavras, afinal, algumas palavras simplesmente não estavam no vocabulário que me tinham ensinado. Dar novos sentidos era meu problema naquele momento. E um problema que teria de enfrentar sozinha: “...salve estes que lamentam... de qualquer modo, é a minha viagem até o fim da noite”, pensei.
Ele continuava em meio a papéis, dizendo que sim, as pessoas haviam se tornado escravas de probabilidades. Quais números, perguntava insistentemente, mas agora ele parecia não me ouvir, talvez adentrava portas de recintos não habitados, talvez procurava a si mesmo enquanto se perdia no labirinto da solidão. Haveriam muitos talvezes. Ele me disse que eu poderia inventar palavras, e plurais também. Eu me senti mais aliviada. E ele disse, sutilmente, ‘entendo’...
Enquanto houvesse a lacuna da fronteira intransponível, por mais palavras que se utilizasse, e por mais que o vocabulário se tornasse mais específico para as realidades forjadas a cada dia, não haveria comunicação. Eu disse ‘que brilhante a tua conclusão’, mas ele tratou como se fosse ironia. Que nada. Eu estava pensando naquela parte em que tudo ficava cinza, posto que os pensamentos eram amenizados, e nós nos libertávamos para simplesmente sentir, e assim, sem palavra alguma nos comunicávamos mais do que teses de 500 páginas, porque nosso olhar nos dizia algo mutuamente, sem dor.
Se minimizar exceções é o desejo destes portos, onde o que existe é apenas o presente, o presente, e o presente como fronteira intransponível, nós dizemos em coro (eu e ele), que somos todos únicos, terrivelmente únicos, que a lógica não nos condena, porque a ultrapassamos, e isto é uma escolha, e, se for criminosa, não nos importamos em habitar a noite, ou o exílio, se querem dizer assim, porque quando eu havia perguntado a ele “você sabe o que transforma a noite em luz?”, ele me respondeu “a poesia”.
Se estamos na capital da dor, nos amamos, e basta uma carícia. Ela nos conduz à nossa infância.
Sunday, April 13, 2008
Ninguém

Mas agora te tornaste verbo, e despejas tuas palavras denotando (apenas) erudição. És apenas um vocábulo, uma palavra em gênero femino escrita n'algum papel amassado.
E eu te rasguei.
Thursday, March 27, 2008
Rascunho

Aí estou, um rastro, um fio nebuloso que se estende pelas cidades nas quais me perco, uma fita que mal cintila a sua aparência, e que me põe a sorrir diante das vicissitudes da vida. Afinal, o sorriso transforma? Quais escombros ele desmente? Naquelas esquinas em que me encontrei perdida... Pois sempre perdida, com calça desbotada, uma espécie de hiato temporal entre o chão leve, vermelho, e os passos que vão tecendo o asfalto.
Algo navalha a carne. Será pele? Será polis? Não, epifanias discursivas, enquanto me despeço de Platão, no mesmo instante em que ele se despede dos artistas...
Apenas perguntas vãs. Que arranjos me dispõem respostas? Nelas não me pertenço...
Estranho, ainda assim é difícil me ver na imagem...
Estou sentada à esquerda.
Saturday, March 15, 2008
O Teatro Mágico


Thursday, March 13, 2008
Tuesday, March 11, 2008
Depois das horas

Por quanto parado? estático?
Decide caminhar e entreter-se com sorrisos de passos.
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"O meu paraíso é onde estou"! Teatro Mágico em Londrina, é muita emoção nesta vida!!!
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Sunday, December 02, 2007
Faço um filme da cidade sob a lente do meu olho - um exercício de escrita em vários ângulos
Recordo-me das pinturas do Romantismo, no qual as ruínas figuravam como elemento representante de melancolia, mas também de uma realidade interior, em que a natureza é fator predominante. Homens figuram ao redor de paisagens em ruínas, porque nelas, a natureza se sobrepõe à obra constituída.
Esta é uma imagem que foi feita
Estava com um grupo de amigos, fotografávamos e mostrávamos as belezas daquela pequena cidade para outros amigos estrangeiros. Nesta parte do percurso, um grupo de crianças percebeu a incidência de uma língua outra, e começou a dizer “-Hi, my name is ...”. O interesse que, em princípio, era pelos estrangeiros, transformou-se num interesse em saber o que estávamos fotografando. Uma pergunta impactante, feita por uma delas: “-O que tem para fotografar aqui
Sem ela perceber, havia muitas coisas, sim, a serem fotografadas naquele belíssimo lugar. Incrível como a menina se relaciona com a paisagem, como se estivesse sempre ali, à minha espera.
Friday, November 23, 2007
Dizer

Sobra tanta falta
Falta tanta coisa na minha janela, como uma praia
Falta tanta coisa na memória, como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio, quanto uma semana,
Sobra tanta falta de paciência que me desespero
Sobram tantas meias verdades que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer que nunca consigo
Sei lá se o que me deu foi dado
Sei lá se o que me deu já deu
Sei lá se o que me deu foi dado
Ou se é seu
Sei lá
Dizeres que me perpassam... Arte digital: Steffania Paola. Poesia: Carlos Trevisan, para música de "O Teatro Mágico".
Wednesday, October 31, 2007
Endereço
Uma beleza de endereço para se achar no google earth, e um número fácil para pessoas com pouca memória.
Eu tenho dificuldade com números e nomes. Mas acontecimentos gravo bem! Sabe, é assim, e tem sido, tudo meio descontraído. Tem até espaço para estender lençóis, e eu às vezes estendo rede também - e por vezes me deito até na chuva. "- O que você quer ser quando crescer?", tenho me perguntado. Jorge Ben responderia jogador de futebol, mulher de milionário, presidente, eu diria deitadora de redes. Porque não é uma atividade fácil a de perceber as pequenezas do mundo. As estrelas são bem pequeninhas quando a gente olha pra cima, sabe. E eu ando percebendo que a gente consegue olhar o mundo bem melhor quando está de cabeça pra baixo. Deitadora de redes. Uma boa ocupação. Já não diria profissão, porque acho que não tem preço. As barbas de Marx também me encomodam. Através delas não se vê estrelas! Quantas grandezas pretenciosas. Eu ainda fico com o desconhecido. Não tenho banheira. Não tenho piscina. Mas tenho a chuva, sabe. E muitas vezes ela me conduz, ainda que eu teime em comprar guarda-chuva colorido. Roxo, verde, laranja, com bolinhas, listras, até transparente já comprei. Que aliás não guardam nada. De vez em quando eu fico latindo, meus cachorros me sobem à cabeça, e é como se a língua que por convenção me comunico (??) não me pertencesse mais. Mas às vezes - muito às vezes(!!) - eu escrevo. E conto estas coisas desprotegidas que me protegem. E mesmo não estando inspirada, eu procuro a inspiração. Tenho lido histórias em quadrinhos, e feito amigos. Sabe, a gente se desaponta com as certezas - e até as pessoas vão se reciclando. Eu me engano muito com elas, são poucas as que ainda continuam em atalhos na minha vida. Sim, eu sei, as distâncias são necessárias, mas eu acho que é por causa delas que prefiro latir. Enquanto alguns matam cachorros e chamam isso de "arte". O meu maior susto foi aquele de todos os dias, porque eu estou deixando mesmo de esperar. Sabe aquela figura ali bem no cantinho? Então, foi uma fotografia de uma fotografia de uma fotografia de uma fotografia de uma joaninha que eu fiz pra minha amiga nine, que está longe, mas que tem muitos atalhos em mim. Eu quero só ver. Para quê saber o meu endereço se não vem me visitar?
Tuesday, October 30, 2007
Faubourg Saint-Denis

Escuta.
Às vezes a vida exige uma mudança.
Uma transição.
Como as estações.
Nossa primavera foi maravilhosa, mas o verão terminou e deixamos passar o nosso outono.
E agora, de repente, faz frio, tanto frio que tudo se congela.
Nosso amor dormiu e a neve o tomou de surpresa.
E se dormes na neve não sentes vir a morte.
Cuide-se.
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De um dos filmes mais bonitos - Paris, je t'aime. "Faubourg Saint-Denis", de Tom Tykwer - Um dos curtas. O que mais gostei. Porque me diz muito.

Wednesday, October 17, 2007
Happy weekend
Monday, September 03, 2007
Pureza
Wednesday, August 22, 2007
Des-forme
São esses afazeres de poços profundos
Em que te fazes tão breu
Notícias silenciosas também te calam
Enquanto a solitude se avizinha
Nada brilha mais
A não ser aquela poeira que ficou
Sem espaço escolhido,
Promocionalmente esquecida.
Onde te dói, noite
A não ser naquilo que mais calas?
Qual desvio de ti se aproxima?
Sunday, August 05, 2007
Saturday, July 14, 2007
Sábado...
Os pássaros, a ponte, as mesmas frases pintadas, o céu, o sol. “Um dia como outro qualquer” com um quê melancólico. Este lugar não me pertence, mas é como se estivesse difusa em cada limiar dessas passagens. Lá sou eu, aquele pássaro negro entre pássaros brancos, a única passagem livre para motos, a pedra que o homem resolveu pintar e chamar de casa, alguma incidência leve de movimento nos galhos das árvores, sou eu também que as sopro. Sou a árvore que não respeita a linha, um galho seco onde tudo o que se vê é água, sou mesmo uma natureza morta, e somente poucos percebem que, na verdade, não passo de uma natureza adormecida...
Sou as roupas coloridas estendidas num varal. Eu sol.
Eu sou o reflexo do céu nas poças de chuva. Sou também uma cerca que não delimita. Sou ainda a bagagem daquela senhora. E às vezes, eu carrego nada.
Eu sou o vôo rente, e estou sempre abraçando a grande figueira, logo que passa o desvio do trem.
Eu sou um abraço.
Sou um bicho sem socorro no asfalto.
Wednesday, June 13, 2007
Dos exploradores da Palavra
Seção última e íntima sobre um processo de arqueologia da pele
Musicando vestígios I
Intervenção visual no MALG. Saída pela sala – espaço muitas vezes mortuário, o museu – portando uma bicicleta. Desconcerto dos espectadores, que conversam o que jamais saberei. Gravura, espaço e tecedura de texturas. Vou tecendo através dos meus não-passos por (pneu de) bicicleta.
Pneu vazio vai me dando as margens deste percurso ao acaso: sinto pernas enrijecerem-se mediante a troca das texturas alternantes asfalto-pedra-calçada sinuosa. A cada troca, este movil trabalhando por princípios físicos me propõe novas experimentações de meu corpo e do espaço. Já não traço as ruas pelos seus vulgares referenciais (universidade, farmácia, bar), na verdade seus usos foram negligenciados, este é um percurso dos afetos potencializados pela matéria.
Andei fazendo algumas gravuras pelo caminho... Mas delas não tenho vestígios.
Pode parecer ambígua a idéia de fazer gravuras imaginárias. Logo estas, que têm a necessidade da matéria (enquanto matriz, o pneu)...
Mas me detenho na gravura enquanto incisão. Incisão ao acaso daquilo que se desfaz sem ter sido: gravura imaginária como pequenas incisões imperceptíveis no asfalto.
Thursday, May 17, 2007
Espinhos, esporas*
Fecha os olhos. Esquece, esquece, esquece! - Mas não consigo!
Vai lutando, até que.
Agora que tudo parece mais calmo, e por vezes límpido, decide ligar as luzes. Desconfia de si e de todos. Olha no espelho, e finge estar contente. - Não preciso mais disto.
Sai de casa em busca de alguém com quem dividir [o seu vazio].
Bate a porta, mas não convence a ninguém.
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Embebida em Orós
* Sobre a renda labirinto pedras no meu peito aberto em chaga amor
Conheço a morte e a paixão, conheço a morte e os espinhos... esporas...
Wednesday, April 18, 2007
Sunday, March 04, 2007
Naquele meio-termo, tempo, surgira todo um mundo por entre uma fissura escolhida. Pedia passagem, e também acolhimento. Aconteceu que não o notara por entre a caminhada, cercania do verde de uma tarde de primavera quaquer. Nenhum vidro o cobria, estava exposto, mas isto definitivamente não era o bastante. Corta pele, vidro, prejudica a escrita, mas não o olhar-acaso. Foi assim que o verde surgiu em meio a nuvens de uma madeira mal-tratada. Casa, morada, pele? Já não se pode habitá-la só.
Friday, March 02, 2007
Friday, February 09, 2007
Andei revivendo a leitura de um não-lugar não mais habitado, povoado somente por silêncios e fissuras, por descompassos, enfim.
Memória tal qual mandrágora que fere o que já é ferida. Mas como buscar cura, se já não há? Melancolia dos desprazeres movidos a anti-depressivos... Preferi a escrita. Onde está a carne em meio a todas estas letras jogadas ao pó? Cavei meu próprio túmulo nesta escuridão chamada noite-quente-de-fevereiro. Mas o que posso fazer, se me dói a garganta?
Mereço uma meninice de rompante, gritando atenção. Mas que bobagem esta de dar milho às pombas. Sacrifício cotidiano da incompreensão. Let fly. E sempre que um barbante prende, dá-se um jeito, a vida e suas intermitências. No meu tempo tatuagem era "decalque". Ainda sonhei que me escreviam poesias malditas pelas pernas. E não eram decalques.
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Como vou apagar,
a palavra carne
pressupõe desejo, vontade,
mas fui roubada
de mim
em meio à ebriedade.
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E para quê tantas mensagens sem um destino fixo? Carrossel de passagem, dê mais uma volta.
Mas eu passei para alguns brinquedos mais tempestuosos...
Aquela poesia só me fez chorar... e dormir.
Tuesday, February 06, 2007
Memória revisitada [alguns fragmentos extemporâneos sofreres de caos]
Escrevendo pouco ou nada;
Vivendo, e constituindo-me de outras formas de escrita.
Escrita-olhar, escrita-lágrima.
Ainda hoje vi um pássaro na esquina
Que me contava poesias de desassossego...
– Onde termina teu corpo e começa o céu, dizia.
Esta visita-canção que me remete ao cálice,
Dor e lágrimas de fugas sem começo
Desencontro do frio e calor
Vazia.
Despertando entre o cume de paixões sem fim,
O que significa esta canção?
Um caminho, uma estrada, passos.
Eu, criança sem moradas,
Longe de todos,
Encontro em um rosto o amparo
Dos pássaros que voam,
E, vivos, sempre partem...
Mas a partida de já não estar ali
Não advém de desconsolos,
E é para além do céu
Que sempre dizem para tomar como verdadeiro.
Este canto não deseja dizer muita coisa...
Pretensões falíveis de mundos oníricos
De abraços, confortos sem armaduras,
Muros não mais escadas.
Finalmente decidida... Ainda que de pouco,
É para ti que está escrita esta canção.
Desejo, apenas.
Constituída de naus
De mares...
De movimento.
Oscilações e metamorfoses
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Onde está meu relógio?
Ah, me esqueci.
Ele se foi e só volta meia-noite, horário de Dodecaedro,
E de recomeçar:
Vivendo, e constituindo-me de outras formas de escrita.
Escrita-olhar, escrita-lágrima.
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Tudo isto é um erro.
Mas bem pode ser sincero.
Monday, February 05, 2007
[Pequen]Os deslizes da palavra
Explicação desnecessária II:
Recorte feito da seção “Os deslimites da palavra”, do Livro das Ignorãças, de Manoel de Barros. O intuito é jogar com o não pertencimento, com a ruptura da identidade do poema acabado, em busca da leitura que constrói por meio da re-significação. Uma nova ordem, uma nova significação... Outros funcionamentos para os modos diversos de combinação. Enfim, desarrumei ao meu modo a desarrumação do delírio frásico do canoeiro: e que a palavra siga voando fora da asa...
DIA UM
Ontem choveu no futuro.
Estas águas não têm lado de lá.
Daqui só enxergo a fronteira do céu
Os nomes já vêm com unhas?
Ninguém que tenha natureza de pessoa pode
esconder as suas natências.
Sou o passado obscuro destas águas?
Do meu destino eu mesmo desidero.
Falo sem desagero.
Meu olho tem aguamentos.
(Fui urinado pelas ovelhas do senhor?)
Sou puxado por ventos e palavras
(Palestrar com formigas é lindeiro de insânia?)
Não tremulam por mim os estandartes
Maior que o infinito é o incolor
Eu sou meu estandarte pessoal.
Preciso do desperdício das palavras para conter-me
O meu vazio é cheio de inerências
Sou muito comum com pedras
(tirei as tripas de uma palavra?)
A chuva deformou a cor das horas.
A placidez já põe a mão nas águas.
Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças.
(Minha boca me derrama?)
Não tenho competências para morrer.
O céu tem mais inseto que eu?
SEGUNDO DIA
Não oblitero moscas com palavras
Uma espécie de canto me ocasiona
Eu escrevo o rumor das palavras
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre meu rosto vem dormir a noite
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra
Aceito no meu fado o escurecer.
No ermo o silêncio encorpa-se.
Confesso meus bestamentos.
(Dou necedade às palavras?)
Estou irresponsável de meu rumo.
Me parece que a hora está mais cega.
Cheiroso som de asas vem do sul.
(Sou pessoa aprovada para nadas?)
Quero apalpar meu ego até gozar em mim
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Esfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
As sujidades deram cor em mim.
Estou deitado em compostura de águas
Minha luta não é por frontispícios.
O desenho do céu me indetermina
Às vezes passo por desfolhamentos
O ocaso me ampliou para formiga
Ajeito os ombros para entardecer.
Vou encher de intumências meu deserto
O infinito do escuro me perena.
TERCEIRO DIA
(existe um tom de mim no entardecer?)
Palavra que eu uso me inclui nela.
Engastado em meu verbo está seu ninho.
O ninho está febril de epifanias.
(com a minha fala desnaturo os pássaros?)
Minha voz inaugura os sussurros
Nas minhas memórias enterradas
vão achar muitas conchas ressoando.
Durmo na beira da cor.
(Eu tenho amanhecimentos precoces?)
Não sei mais calcular a cor das horas.
Alguns pedaços de mim já são desterro
Me mantimento de ventos.
Tenho uma dor de concha extraviada.
Uma dor de pedaços que não voltam.
Eu sou muitas pessoas destroçadas.
Wednesday, January 31, 2007
não vestes vermelho
não és digna
bobagem esta a de significar
assim pretenciosamente
uma vida de cruezas banais
manipulas o que não possuis
doam-se os que não têm pulso
enfrentar-te é não se deixar seduzir
por teus lábios fétidos
- veneno lançado ao chão -
de uma inconsequência qualquer.
ah, mulher,
como podes dizer que autenticidade
é fecalidade
sim, a merda é mais respeitável
não temas a dúvida.
para que santos
se o batismo já foi reinventado
Monday, January 29, 2007
las espaldas duelene já não me contento em passar
tal qual água corrente
de movimento incessante
irremediáveis contornos
de rosto seco, a chorar
demorar-se em si mesmo
tanto quanto silenciado
daqueles retornos corridos
ah, a angústia agora
é suor, tudo tão quente
e o corpo já não se fere
auto-flagelo de outrora
agora é um quarto vazio
querendo-se povoar
não, não é por conveniência
alguns chamam isso de saudade
e chego cada vez mais,
aproximando cercanias
ao redor e tudo mais
e os kilômetros se vão
Wednesday, January 17, 2007
Monday, December 11, 2006
Wednesday, December 06, 2006
PALAVRA
Depositário

Por quais escuridões passaram-se séculos, este espaço ainda sujo, sacralizando paixões em rituais, como se estivesse revivendo um abate (esconda-se, alguém está à sua procura...).
Esperava alguém.
Ouvia-se à porta batidas leves.
Eram batidas tão suaves, escondendo uma curiosidade latente. E poderiam ser de qualquer pessoa.
Não houve resposta, ninguém ousaria entrar naquele mundo, naquele pequeno mundo sujo e vil. O silêncio escondia a vergonha. Pequenas violência cotidianas.
Refez sua maquiagem. As lágrimas foram devidamente encobertas.
De volta à festa, os minutos passaram, ninguém notou a falta.
Aquela pessoa esperada havia encontrado alguém com quem dividir o seu vazio. Retorna mascarando desconsolo, aprendeu a fingir tão bem, ascese burocrata, nada mais dói, nem dá prazer. Chorou porque não admitiu se tocar, porque o corpo, nestas tragetórias, é mero depositário.
Fingiu tão bem
Ali
Ali onde não se geme
Ali onde não se arde
Ali onde não se vive
Só se passa
Monday, December 04, 2006
no lo proclamaré a los cuatro vientos
ni me sentiré un elegido:
sólo me tocó en suerte,
y lo acepto porque no está en mi mano
negarme, y sería por otra parte una descortesía
que un hombre distinguido jamás haría.
Se me ha anunciado que mañana,
a las siete y seis minutos de la tarde,
me convertiré en una isla,
isla como suelen ser las islas.
Mis piernas se irán haciendo tierra y mar,
y poco a poco, igual que un andante chopiniano,
empezarán a salirme árboles en los brazos,
rosas en los ojos y arena en el pecho.
En la boca las palabras morirán
para que el viento a su deseo pueda ulular.
Después, tendido como suelen hacer las islas,
miraré fijamente al horizonte,
veré salir el sol. la luna,
y lejos ya de la inquietud,
diré muy bajito:
¿así que era verdad?
«Isla», 1979
Virgilio Piñera, poeta cubano
Monday, November 27, 2006
Contact improvisasión
quando meu braço
sem perceber
toca o papel
corpo estranho
poeira nas mãos
e no rosto o cabelo solto
descontrolado
sem limite
poética dos fragmentos
(de mim)
jogados ao chão
---------
d'algumas experiências dançantes e moventes, ao som da voz da prof. argentina de Contact, Marina.
Lindo. Simplesmente.
Friday, November 24, 2006
Mandrágora
de ópio enfileirando a poética
revisitando confins de memórias
rotos e amassados
senti pouco ou muito
de uma presença de ti
ainda não o sei.
Nos liames
foi que te percebi
em meio a lágrimas
e algumas ataduras do tempo
que se esvaem
naquela curvatura
entregue à passagem
das dobras, recheios ou desenlaces
do viver.
Pois não, alguma obra feita.
Paragens ou um sonho à espera
de quem (o) sonhe
Frituras do porvir
(Ah, quão entregue ao suor
que me aludes).
E depois,
dos lixos da vida
revestidos de brilhos
distâncias mínimas, quem sabe
ou uma aparência insuportável
a menos de dois passos
o vômito.
E lá onde bate a casca
a lágrima do tempo retorna (retoma)
por que cargas fede?
Ah, mandrágora memória
Deixe-me em paz
Wednesday, November 22, 2006
Escritas e esboços
Meu primeiro esboço para a escrita: a sua auto-flexão. Não seria refleti-la, mas propor, com ela, a formação de novos mundos, desdobramentos. Para isto, utilizo-me de alguns referenciais, sendo tecidos principalmente a partir de afirmação encontrada em uma seção do Zaratustra de Nietzsche (2005), intitulada “do ler e escrever”; [...]
Compor sobretudo um desejo: tratar Nietzsche com a devida insubmissão (ou não limitação?) a seus escritos, como o estudante que abandona seu mestre e tenta escrever suas próprias linhas, tal qual o personagem-conceitual Zaratustra o quer, demonstrando que “um modelo não é uma prisão, ele convida a encontrar seu caminho e a manifestar sua ingratidão” (ONFRAY, 1995, p. 13), não tornando a sombra do mestre um espólio, ou fabricando um dublê de intelectual... Assim, procuro tratar a escrita neste pequeno escrito (desculpe-me a repetição) como algo ligado à vida, e sendo delineada conforme as experiências, escolhas e modos de existir. O escritor como um artífice da palavra, da palavra que fere, suscitando fluxos e devires, enfim, movimento e vida.
A primeira passagem: “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue, e aprenderás que sangue é espírito” (NIETZSCHE, 2005, p. 66).
...
Monday, October 30, 2006
Clandestina



Wednesday, October 25, 2006
Seu Gabriel
Tuesday, October 24, 2006
Deixa Dizer
Naquele momento eu senti
que presisava de muito mais
ar do que minhas narinas
poderiam suportar
era como se me faltasse
espaço para entrar tamanha
quantidade por ora uma sensação
de sufocamento além velocidade
que eu poderia voar
era como se eu
adentrasse as estradas
fizesse parte delas
momentaneamente
eu me deslocava em
direção ao sol sim ele é
laranja ou cor de
mas sempre me doía
os olhos quando o encarava
bem de frente
aquele vento amenizava
o raio cego indo ao
encontro da imagem
que nunca vou esquecer
na ponte em um horário
não estabelecido pelos ponteiros
mas ao relento do acaso
o sol laranja ou cor de
é um híbrido
e se mistura com a cidade
Wednesday, October 11, 2006
POeSi[magem]A - poesia à margem
de André Luiz Xavier, usuário do CAPS/Itapeva e membro da Associação Franco Basaglia, São Paulo, SP.
de Marli Coelho Marques de Abreu, usuária do Ambulatório de Saúde Mental do Mandaqui, São Paulo, SP.
Tuesday, October 10, 2006
Não
sociedade perfeita
rouba-se tudo o que é humano
por um minuto de pílula da felicidade ideal.
A formalidade impera
e a cura tornou-se normalidade
a dor é a medida daquele que se nega a sentir
basta arriscá-la que dela se abstém...
(mortificação via anestesia)
Demasiadamente bombástica
a realidade de repetições discursivas
sim, este é o mundo "moderno",
espera-se as férias para poder viver paixões,
mas já não se tem tempo para sentir o que quer que seja,
qualquer coisa que "desestabilize"
o normalizante vício de não parar nunca,
ainda que não se chegue a lugar algum.
Esta ênfase ao movimento desenfreado,
esta pós-modernidade,
dicursinho banal
(foda-se)!
Sinto vontade de vomitar
frente ao novo império do novo,
que é tão conservadorquanto o tradicional o é...
Minha vontade é explodir o mundo,
está tão difícil viver nele.
Talvez seja melhor explodir-me
ante a tantos desajustes.
Nao,
eu não consigo concordar com o consenso.
Não,
eu não pretendo uma atitude conciliadora.
Não,
os meus princípios não vislumbram
uma epopéia simplória do "todo".
Primeiro ato de solidão.














































