
Erro, nada, morena. Pecado é não viver.

Diferentes ritmos, passos lentos, passos que se dispõem. Dão-se ao tempo: tempo este necessário para que os fluxos perpassem algum lapso que não seja o de um sentido que vem, e impera. Perguntava-me sempre se era pé, após pé, ou um olhar atrás, quiçá um olhar através... para que lado se direcionava o olhar, quando a matéria de pensamento era a memória – a questão sempre era: se olha realmente para trás, quando se olha para trás? Caminha-se para qual direção, quando não foi imposta uma direção à caminhada? Sei que a passos lentos fui tecendo alguns emaranhados nos quais me perco ainda... fios de pele, olhares que envolvem algumas paisagens ainda tênues... doces lembranças do porvir...
toco com os olhos o que para mim é poro,
como aquilo que na infância pensei haver conhecido,
mas que não passava de cisco,
e hoje é deslumbramento.

Passos se desfazem em meio a folhas secas, que tomam conta de um outono tardio. Colorações movidas pela decomposição: do dia, do verde, das intenções, das lembranças. O ferro mantém um pigmento natural, e sobre ele, passagens de sentidos múltiplos. Andei pensando que por frestas também se podia sonhar, eis que o vento chega e me sacode as inquietações... Passar uma noite acordada olhando para as ausências pode até comover. Mas percebi que na paisagem me perpasso, e também nas frestas encontro algum alento. Se em algum momento eu me vi refém de mim, sofrivelmente foi aquele não que, de modo inalterável, fez-me ver que, sim, ainda é possível sonhar. Olho além. E ainda vejo vida. Então...
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* Imersa em “Deve haver algum sentido em mim que basta”, da Companhia de Teatro Autônomo, do RJ.

Apoia-se na janela e assiste a vida passar. São movimentos frenéticos, mas observa tudo com uma serenidade de quem respeita o movimento da vida. O tempo já não é motivo de dor... Não pensa que já vivera tudo, embora no alto dos seus 72 anos muito já esteja impresso nos limiares de seu corpo: rugas e cabelos brancos, disso já havia notícia há anos. Mas ela sorri. Não faz parte da geração cosmética. E respira aliviada por isto.
Um singelo ‘olá’ àquele que passa. Pensam que ela espera, um amor, uma dor, algum instante puro e doce de afeto. “Espera não é desespero, menino”, ela pensa em dizer para o garoto que corre sem saber para onde vai.
Ela não espera. Sabe, simplesmente, respeitar o tempo. Sabe, também, que n’aquela janela onde se debruça todos os dias estão inscritas muitas memórias que talvez não tenha tempo de contar.
