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Monday, May 05, 2008

A capital da dor

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Para Sandra, que tanto me disse para assistir...


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Hoje eu vou tentar uma escrita surrealista. Qual, perguntei, eu, meio displicentemente, porque pouco o ouvia. Talvez fosse falta de atenção. Qual, repeti, com um pouco mais de afinco. Aquela que a gente escreve sem se preocupar com a ordem, a gramática e a semântica. Ah, aquela que vem sem ponto, disse eu, como se entendesse. Na verdade eu não entendia, como em Alphaville**, o significado de somar. Não bastavam as composições de palavras, afinal, algumas palavras simplesmente não estavam no vocabulário que me tinham ensinado. Dar novos sentidos era meu problema naquele momento. E um problema que teria de enfrentar sozinha: “...salve estes que lamentam... de qualquer modo, é a minha viagem até o fim da noite”, pensei.

Ele continuava em meio a papéis, dizendo que sim, as pessoas haviam se tornado escravas de probabilidades. Quais números, perguntava insistentemente, mas agora ele parecia não me ouvir, talvez adentrava portas de recintos não habitados, talvez procurava a si mesmo enquanto se perdia no labirinto da solidão. Haveriam muitos talvezes. Ele me disse que eu poderia inventar palavras, e plurais também. Eu me senti mais aliviada. E ele disse, sutilmente, ‘entendo’...

Enquanto houvesse a lacuna da fronteira intransponível, por mais palavras que se utilizasse, e por mais que o vocabulário se tornasse mais específico para as realidades forjadas a cada dia, não haveria comunicação. Eu disse ‘que brilhante a tua conclusão’, mas ele tratou como se fosse ironia. Que nada. Eu estava pensando naquela parte em que tudo ficava cinza, posto que os pensamentos eram amenizados, e nós nos libertávamos para simplesmente sentir, e assim, sem palavra alguma nos comunicávamos mais do que teses de 500 páginas, porque nosso olhar nos dizia algo mutuamente, sem dor.

Se minimizar exceções é o desejo destes portos, onde o que existe é apenas o presente, o presente, e o presente como fronteira intransponível, nós dizemos em coro (eu e ele), que somos todos únicos, terrivelmente únicos, que a lógica não nos condena, porque a ultrapassamos, e isto é uma escolha, e, se for criminosa, não nos importamos em habitar a noite, ou o exílio, se querem dizer assim, porque quando eu havia perguntado a ele “você sabe o que transforma a noite em luz?”, ele me respondeu “a poesia”.

Se estamos na capital da dor, nos amamos, e basta uma carícia. Ela nos conduz à nossa infância.


* Cena de Alphaville. Este texto foi baseado neste filme.

** Alphaville, de Jean-Luc Godard, 1964. “uma vez que nós conhecemos 'um', nós acreditamos que conhecemos 'dois'
porque um mais um é igual a dois. O que nós esquecemos é que temos que saber o significado de somar...”.



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Sunday, April 13, 2008

Ninguém

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N'aquela noite em que pintava minhas unhas de azul foi que pensei no vão que havia entre o meu peito e o teu. E foi lembrando que não tinhas direito à memória de meus dias que pensei, sem sofreguidão, que quem me detinha nas horas da saudade não eras tu, mas o que eu tinha feito de ti. Como eu te criara. Disto sentia falta.
Mas agora te tornaste verbo, e despejas tuas palavras denotando (apenas) erudição. És apenas um vocábulo, uma palavra em gênero femino escrita n'algum papel amassado.

E eu te rasguei.


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Thursday, March 27, 2008

Rascunho

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Aí estou, um rastro, um fio nebuloso que se estende pelas cidades nas quais me perco, uma fita que mal cintila a sua aparência, e que me põe a sorrir diante das vicissitudes da vida. Afinal, o sorriso transforma? Quais escombros ele desmente? Naquelas esquinas em que me encontrei perdida... Pois sempre perdida, com calça desbotada, uma espécie de hiato temporal entre o chão leve, vermelho, e os passos que vão tecendo o asfalto.

Algo navalha a carne. Será pele? Será polis? Não, epifanias discursivas, enquanto me despeço de Platão, no mesmo instante em que ele se despede dos artistas...

Apenas perguntas vãs. Que arranjos me dispõem respostas? Nelas não me pertenço...

Estou sentada ao lado esquerdo do peito de um estranho.
Estranho, ainda assim é difícil me ver na imagem...
Estou sentada à esquerda.



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Saturday, March 15, 2008

O Teatro Mágico

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Para quem não conhece... Façam isso. Foi, sem dúvida nenhuma, uma das coisas mais lindas que eu já vi em toda a minha vida. Algo realmente mágico, e não apenas no nome, mas em cada sorriso, em cada olhar, em cada energia trocada, em cada palavra dita, em cada silêncio povoado... Sinto-me mais leve. Com sonhos latentes...





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Thursday, March 13, 2008

Intervenção à margem da escrita, sob um pedaço colorido de papel virtual

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a partir de Cartografia Interior (1996) , da artista mexicana Tatiana Parcero.


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Tuesday, March 11, 2008

Depois das horas


Depois das horas o caminhante alude a permanência ao despojo do tempo.
Por quanto parado? estático?
Decide caminhar e entreter-se com sorrisos de passos.



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"O meu paraíso é onde estou"! Teatro Mágico em Londrina, é muita emoção nesta vida!!!



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Sunday, December 02, 2007

Faço um filme da cidade sob a lente do meu olho - um exercício de escrita em vários ângulos

Beatriz Ferreira ₢

Recordo-me das pinturas do Romantismo, no qual as ruínas figuravam como elemento representante de melancolia, mas também de uma realidade interior, em que a natureza é fator predominante. Homens figuram ao redor de paisagens em ruínas, porque nelas, a natureza se sobrepõe à obra constituída.

Esta é uma imagem que foi feita em São José do Norte, em 2007. Um lugar que aprecio muito, não somente pela possibilidade de avistar a cidade de Rio Grande ao fundo, mas por aqui haver uma ruína que vai se modificando com as estações, sendo tomada cada vez mais pelas forças das águas.

Estava com um grupo de amigos, fotografávamos e mostrávamos as belezas daquela pequena cidade para outros amigos estrangeiros. Nesta parte do percurso, um grupo de crianças percebeu a incidência de uma língua outra, e começou a dizer “-Hi, my name is ...”. O interesse que, em princípio, era pelos estrangeiros, transformou-se num interesse em saber o que estávamos fotografando. Uma pergunta impactante, feita por uma delas: “-O que tem para fotografar aqui em São José do Norte, moça?”. Eis que, depois de momentos de descontração, olhávamos o pôr do sol. As crianças se dispersaram, e uma delas se sentou na pedra, um dos resquícios de uma grande casa, que está completamente em ruínas.

Sem ela perceber, havia muitas coisas, sim, a serem fotografadas naquele belíssimo lugar. Incrível como a menina se relaciona com a paisagem, como se estivesse sempre ali, à minha espera.

Friday, November 23, 2007

Dizer



Sobra tanta falta

Falta tanta coisa na minha janela, como uma praia

Falta tanta coisa na memória, como o rosto dela

Falta tanto tempo no relógio, quanto uma semana,

Sobra tanta falta de paciência que me desespero

Sobram tantas meias verdades que guardo pra mim mesmo

Sobram tantos medos que nem me protejo mais

Sobra tanto espaço dentro do abraço

Falta tanta coisa pra dizer que nunca consigo

Sei lá se o que me deu foi dado

Sei lá se o que me deu já deu

Sei lá se o que me deu foi dado

Ou se é seu

Sei lá



Dizeres que me perpassam... Arte digital: Steffania Paola. Poesia: Carlos Trevisan, para música de "O Teatro Mágico".